
Sodré GB Neto
Afiliação: IPPTM – Instituto de Pesquisa em Paleogenética, TP53 e MicroRNA / CEGH / ICB / UFG: Centro de Genética Humana
DOI:10.13140/RG.2.2.28693.18405
Resumo: Este artigo analisa a característica antropológica universal da adoração a uma divindade e o processo subsequente de deslocamento desse culto para elementos mediadores, como líderes, artefatos e sistemas religiosos. Utilizando a fenomenologia da religião de Mircea Eliade e a sociologia do sagrado de Émile Durkheim, discute-se como a necessidade humana de materializar o transcendente frequentemente resulta em “idolatria conceitual e material”. O estudo examina como a Bíblia, figuras centrais como a mãe de Jesus, pastores e a própria estrutura eclesiástica deixam de ser meios de acesso ao divino para se tornarem fins em si mesmos, desviando o foco da adoração teocêntrica. Tal tendência torna falha a religião que tinha intensão de ser uma adoração verdadeira.
Palavras-chave: Antropologia da Religião; Adoração; Idolatria; Sagrado; Mediação Religiosa.
Abstract: This article analyzes the universal anthropological characteristic of worshipping a deity and the subsequent process of shifting this worship to mediating elements such as leaders, artifacts, and religious systems. Using Mircea Eliade’s phenomenology of religion and Émile Durkheim’s sociology of the sacred, it discusses how the human need to materialize the transcendent often results in “conceptual and material idolatry.” The study examines how the Bible, central figures such as the mother of Jesus, pastors, and the ecclesiastical structure itself cease to be means of access to the divine and become ends in themselves, diverting the focus from theocentric worship.
Keywords: Anthropology of Religion; Worship; Idolatry; Sacred; Religious Mediation.
Resumen: Este artículo analiza la característica antropológica universal de la adoración a una divinidad y el proceso subsiguiente de desplazamiento de este culto hacia elementos mediadores, como líderes, artefactos y sistemas religiosos. Utilizando la fenomenología de la religión de Mircea Eliade y la sociología de lo sagrado de Émile Durkheim, se discute cómo la necesidad humana de materializar lo trascendente frecuentemente resulta en “idolatría conceptual y material”. El estudio examina cómo la Biblia, figuras centrales como la madre de Jesús, pastores y la propia estructura eclesiástica dejan de ser medios de acceso a lo divino para convertirse en fines en sí mismos, desviando el foco de la adoración teocéntrica.
Palabras clave: Antropología de la Religión; Adoración; Idolatría; Sagrado; Mediación Religiosa.
Introdução
A propensão humana para a adoração e a experiência do transcendente tem sido objeto de intensa investigação neurogenética, sugerindo que a espiritualidade possui uma base biológica significativa. Estudos pioneiros com gêmeos criados separadamente demonstraram que aproximadamente 40% a 50% da variação na religiosidade individual pode ser atribuída a fatores genéticos [17] [19]. Central a essa discussão está o gene VMAT2 (Vesicular Monoamine Transporter 2), frequentemente referido como o “gene de Deus”, que modula os níveis de monoaminas no cérebro e tem sido associado à autotranscendência e à abertura para experiências espirituais [1] [2]. Além disso, polimorfismos no gene do receptor de dopamina DRD4 estão correlacionados com a transcendência espiritual e a suscetibilidade à influência de contextos religiosos no comportamento pró-social [4] [9]. O sistema de serotonina também desempenha um papel crucial, com o genótipo 5-HTTLPR influenciando a religiosidade e a densidade de receptores 5-HT1A correlacionando-se inversamente com escores de aceitação espiritual [10] [11]. A “genoespirualidade” propõe que nossa arquitetura genômica interage com crenças para moldar trajetórias de saúde e comportamento [3] [12]. No campo da epigenética, práticas de adoração e meditação têm demonstrado a capacidade de modular a expressão gênica, reduzindo a atividade de genes pró-inflamatórios através do eixo CTRA (Conserved Transcriptional Response to Adversity) e alterando a metilação do DNA em redes de suporte espiritual [7] [13]. Tais intervenções espirituais podem induzir mudanças rápidas na expressão de histonas desacetilases, evidenciando uma plasticidade epigenética que responde ao engajamento religioso [8] [20]. A integração desses achados sugere que a adoração não é apenas um fenômeno cultural, mas uma manifestação de redes neurais e moleculares complexas que evoluíram para facilitar a coesão social e o bem-estar psicológico [15] [16]. Assim, a genética da religiosidade e psicopatologia revela conexões profundas entre a busca pelo sagrado e a biologia humana [5] [18]. A compreensão dessas bases neurobiológicas é essencial para uma visão holística da saúde e da natureza humana [6] [14].
A antropologia, em sua busca por compreender a essência do homo sapiens, invariavelmente depara-se com a dimensão religiosa como um componente estruturante da experiência humana. Émile Durkheim (1996), em sua obra seminal sobre as formas elementares da vida religiosa[21], postula que a religião é um sistema solidário de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, que unem em uma mesma comunidade moral todos aqueles que a elas aderem. Contudo, para além da função social, existe uma pulsão intrínseca de busca pelo transcendente, o que Mircea Eliade (1992) define como a experiência do homo religiosus[22].
O presente artigo propõe uma reflexão sobre um paradoxo antropológico: enquanto o ser humano possui uma inclinação histórica para a adoração de uma divindade suprema, ele frequentemente sucumbe à tentação de materializar essa adoração em objetos, pessoas ou sistemas. Esse fenômeno, que aqui denominamos “desvio icônico”, transforma os instrumentos de mediação religiosa — como a Bíblia, líderes eclesiásticos, artefatos e figuras históricas — em objetos de culto per se. O objetivo é analisar como essa tendência de “idolatrar as coisas de Deus” em detrimento do próprio Deus reflete uma necessidade humana de controle e tangibilidade sobre o sagrado.
- A Necessidade Antropológica da Adoração e o Sagrado
A adoração não é meramente um ato litúrgico, mas uma categoria antropológica. Desde as pinturas rupestres até as complexas catedrais modernas, a humanidade tem manifestado uma necessidade de se conectar com o “Totalmente Outro”. Rudolf Otto (2007) descreve essa experiência como o mysterium tremendum et fascinans, um mistério que ao mesmo tempo aterroriza e fascina o indivíduo[23].
Nesse contexto, o sagrado é percebido como uma força que transcende a realidade cotidiana (o profano). Para o ser humano, a adoração serve como um mecanismo de orientação no mundo, conferindo sentido à existência e estabelecendo uma ordem cósmica. No entanto, a abstração do divino impõe um desafio cognitivo e emocional: como adorar o invisível? A resposta histórica tem sido a criação de hierofanias — manifestações do sagrado em objetos materiais. O problema surge quando a hierofania deixa de ser uma janela para o divino e se torna uma parede, retendo para si a adoração que deveria atravessá-la.
- O Fenômeno da Idolatria Institucional e Material
A idolatria, do ponto de vista antropológico, pode ser entendida como o aprisionamento do sagrado na forma. Quando um sistema religioso se torna rígido, ele tende a sacralizar seus próprios componentes. Esse processo é visível em diversas esferas da religiosidade contemporânea e histórica[26].
2.1. Líderes e Pastores como Ícones Vivos
A antropologia do carisma, explorada por Max Weber (2004), demonstra como líderes religiosos podem ser investidos de uma autoridade quase divina[25]. No cenário atual, observamos a ascensão de “celebridades gospel” e líderes messiânicos que recebem uma devoção que beira a adoração. O pastor, ou padre, e muito mais o papa, que segundo Jesus, nem deveriam ser chamados de “pai, guia, mestres” , se tornam tambem mediadores indispensáveis, cujas palavras são inquestionáveis (lembrando a infabilidade papal da idade média que gerou entre outros problemas, o absolutismo dos reis que o papa empossava) e cuja presença é sinônimo da presença de Deus. Esse desvio personifica a divindade, tornando-a refém da vontade humana.
“A ninguém na terra chamem “pai”, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados “guia”, porque vocês têm um só Guia, o Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo. Pois todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado”. Mateus 23:9-12
2.2. A Bibliolatria: O Texto como Ídolo
A Bíblia, embora central para a fé cristã, frequentemente sofre um processo de “bibliolatria”. Em vez de ser lida como um registro da revelação divina, ela é por vezes tratada como um objeto mágico ou um sistema jurídico inflexível que substitui a relação viva com o Criador. A sacralização do papel e da tinta pode levar ao esquecimento da mensagem espiritual, transformando o livro em um ídolo de papel. O próprio Jesus destacou este perigo quando disse:
“Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (João 5:39).
2.3. Artefatos e Figuras de Mediação
A veneração de artefatos (relíquias, “objetos ungidos”) e de figuras como a mãe de Jesus ou os santos reflete a mesma necessidade de tangibilidade. Embora teologicamente essas figuras possam ser apresentadas como intercessoras, na prática antropológica do fiel, elas frequentemente ocupam o lugar central da adoração. O artefato torna-se um fetiche, um objeto que possui poder em si mesmo, desviando o foco da soberania divina para a manipulação do sagrado através da matéria.
- Sistemas Religiosos e a Adoração do Sistema
Talvez a forma mais sutil de idolatria seja a adoração do próprio sistema religioso. A igreja, enquanto instituição, pode tornar-se o objeto final da lealdade do fiel. A preservação da estrutura, dos dogmas e do poder eclesiástico passa a ser mais importante do que a vivência dos valores que a instituição deveria promover. Quando a “igreja” se torna maior que o “Deus da igreja”, o desvio icônico está completo.
Conclusão
A tendência humana de idolatrar as “coisas de Deus” é uma característica antropológica que revela nossa dificuldade em lidar com a transcendência pura. A materialização do divino em líderes, livros e sistemas oferece um conforto psicológico e um senso de controle sobre o sagrado. No entanto, como analisado, esse processo invariavelmente leva ao esvaziamento da adoração verdadeira, substituindo o Criador pela criatura ou pela criação.
Para a antropologia da religião, compreender esses mecanismos é essencial para analisar como as sociedades constroem suas hierarquias de valor e poder. O retorno a uma adoração teocêntrica, livre das amarras da idolatria institucional, exige uma vigilância constante sobre a função dos mediadores, garantindo que eles permaneçam como pontes, e não como destinos finais da busca humana pelo divino.
Referências Bibliográficas
21.DURKHEIM, Émile. 1996. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo, Martins Fontes.
22.ELIADE, Mircea. 1992. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo, Martins Fontes.
23.OTTO, Rudolf. 2007. O Sagrado: os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. São Paulo, Vozes.
24.STRATHERN, Marilyn. 2006. O gênero da dádiva: problemas com mulheres e problemas com sociedade na Melanésia. Campinas, Ed. da Unicamp.
25.WEBER, Max. 2004. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo, Companhia das Letras.
26. VIDAL, Lux. (org.). 1992. Grafismo indígena: estudos de antropologia estética. São Paulo, Studio Nobel/Fapesp/Edusp.