A Radiação Cósmica como Motor do Pico Mutacional Holocênico: Uma Reavaliação da Tese do Intelecto Frágil
Autor: Sodré Gonçalves de Brito Neto
Resumo
A acumulação de mutações deletérias no genoma humano, com um pico estimado entre 5.000 e 10.000 anos atrás , tem sido um tópico central no debate sobre a evolução recente da espécie Homo sapiens. A hipótese proeminente de Gerald Crabtree atribui este pico à transição do estilo de vida de caçador-coletor para sociedades agrícolas, sugerindo uma redução na pressão seletiva sobre a inteligência e a integridade genómica. Contudo, esta tese falha em considerar a natureza universal e não-antropogénica de eventos mutacionais de grande escala. Este artigo defende a tese alternativa de que o pico de acúmulo de mutações humanas no Holoceno Médio é primariamente atribuível principalmente a efeitos piezoelétricos nucleares demonstrado em fraturas de rochas, teremotos e em grande escala em queda de grandes asteroides[67, 68] . A evidência crucial reside na observação de variações genéticas recentes e paralelas em grandes mamíferos, como proboscídeos e cetáceos , que não foram sujeitos às mesmas pressões seletivas culturais humanas. A análise de eventos de radiação cósmica, como os Eventos de Miyake , e a recente origem de variações patogénicas em genes de reparo de DNA (DDR) em humanos , fornecem um mecanismo físico-químico mais robusto para explicar o fenómeno mutacional observado.
Introdução
O estudo da taxa de mutação humana e a sua variação temporal revelou um aumento significativo na acumulação de variantes genéticas, particularmente as de efeito deletério, num período que coincide com o início do Holoceno Médio, entre 5 e 10 mil anos antes do presente (ka BP) . Este achado levou à formulação de hipóteses que procuram correlacionar a mudança genética com transformações culturais e demográficas.
A tese do “Intelecto Frágil” de Crabtree postula que a complexidade do intelecto humano é intrinsecamente frágil e que a acumulação de mutações deletérias foi acelerada pela redução da pressão seletiva após a transição para sociedades agrícolas. Segundo esta visão, a densidade populacional e a especialização social nas novas comunidades agrícolas teriam mitigado a necessidade de um intelecto superior para a sobrevivência individual, permitindo que mutações prejudiciais se fixassem na população .
Embora a aceleração da evolução adaptativa humana no Holoceno seja inegável , a atribuição exclusiva do pico mutacional a fatores culturais e seletivos humanos negligencia a possibilidade de um gatilho ambiental universal. A presente investigação propõe que o principal motor do pico de mutações no Holoceno foi um aumento na taxa de mutagénese induzida por radiação, decorrente de eventos astrofísicos e geofísicos .
Materiais e Métodos
A metodologia adotada consistiu numa revisão sistemática e síntese de dados de diversas áreas científicas, incluindo genómica populacional humana , paleoclimatologia e geofísica , e genómica comparativa de mamíferos .
1.Dados Genómicos Humanos: Foram analisados estudos que estimam a idade e a frequência de variantes genéticas humanas, com foco em mutações de novo e variantes patogénicas (PVs) em genes de reparo de DNA (DDR) .
2.Dados Paleoclimáticos e Astrofísicos: Para medir a intensidade da radiação cósmica no passado, examinamos os registos de isótopos cosmogénicos, que são como “assinaturas” deixadas por esses raios. Especificamente, analisamos o Carbono-14 e o Berílio-10, que são criados quando os raios cósmicos atingem a atmosfera da Terra. Esses isótopos ficam preservados em “arquivos naturais” como anéis de árvores e núcleos de gelo, permitindo-nos reconstruir o fluxo de raios cósmicos galácticos e solares ao longo do Holoceno .
3.Dados de Genómica Comparativa: Foi dada atenção especial à evolução do gene supressor de tumor TP53 em grandes mamíferos, como proboscídeos (elefantes e mamutes) e cetáceos , para identificar padrões mutacionais paralelos que pudessem ser dissociados da evolução cultural humana.
Resultados e Discussão
O Pico Mutacional Humano e a Hipótese da Radiação Cósmica
Estudos genómicos confirmam que a maioria das variantes proteicas codificantes em humanos modernos, incluindo as deletérias, surgiu nos últimos 5.000 a 10.000 anos . Este período coincide com o aumento exponencial da população humana e a subsequente expansão demográfica . Embora o aumento populacional possa ter fornecido mais “alvos” para novas mutações , a taxa de mutação por geração não é explicada apenas por fatores demográficos .
A tese da radiação cósmica propõe que flutuações na intensidade do campo geomagnético da Terra e na atividade solar permitiram um aumento transitório no fluxo de raios cósmicos que atingiram a superfície terrestre . Os raios cósmicos, compostos por partículas de alta energia, são agentes mutagénicos conhecidos, capazes de induzir danos diretos e indiretos no DNA .
Registos de isótopos cosmogénicos revelam eventos de radiação cósmica de alta intensidade no Holoceno, como o Evento de Miyake de 5410 a.C. , que se enquadra perfeitamente na janela temporal do pico mutacional humano. A Tabela 1 resume a correlação temporal entre os eventos.
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Evento Geofísico/Astrofísico
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Data Estimada (ka BP)
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Evidência de Isótopos
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Efeito Biológico Proposto
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Referências
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Pico de Mutações Humanas
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5 – 10
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Genómica Populacional
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Acúmulo de variantes deletérias
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Evento de Miyake
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~7.4 (5410 a.C.)
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Carbono-14 em Anéis de Árvores
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Aumento da taxa de mutagénese
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Flutuações do Campo Geomagnético
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Holoceno Médio
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Paleomagnetismo, Berílio-10
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Redução do escudo protetor
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Evidência Paralela em Grandes Mamíferos: O Caso do TP53
A hipótese da radiação cósmica é fortemente suportada pela observação de mutações recentes em grandes mamíferos que não partilham a história cultural humana. O gene supressor de tumor TP53 é um sensor crucial de danos no DNA, frequentemente mutado em cancros humanos .
Elefantes e mamutes, devido ao seu grande tamanho corporal e longevidade (o “Paradoxo de Peto”), desenvolveram mecanismos de supressão de cancro aprimorados, incluindo a expansão do número de cópias do gene TP53 (retrogenes) . Curiosamente, a análise genómica de mamutes-lanosos e elefantes-da-floresta revelou que esta expansão de cópias de TP53 é um evento evolutivo relativamente recente .
A tese de Sodré Gonçalves de Brito Neto argumenta que a variação no TP53 em proboscídeos e mamutes, que o artigo de Li et al. sugere ser recente, não pode ser explicada pela transição para a agricultura humana. Em vez disso, a exposição a um aumento de radiação cósmica teria imposto uma pressão seletiva paralela em espécies com grande número de células e, portanto, maior risco de cancro induzido por mutação .
Outros exemplos de evolução acelerada em genes de reparo de DNA em mamíferos, como o aumento da taxa de turnover de genes supressores de tumor em cetáceos (baleias) , reforçam a ideia de que um fator ambiental global, como a radiação, pode ter impulsionado a evolução convergente de mecanismos de reparo de DNA em diversas linhagens de mamíferos durante o Holoceno.
A Origem Recente de Variações Patogénicas em Genes DDR
O artigo de Li et al. demonstra que as variações patogénicas (PVs) em genes de reparo de DNA (DDR) em humanos modernos, que predispõem ao cancro, surgiram principalmente no período pós-migração para fora da África, um achado consistente com a janela temporal de 5-10 ka BP.
“Nossa investigação abrangente revela que as PVs DDR se originaram principalmente da história evolutiva recente dos humanos modernos, e destaca que o alto risco de cancro causado pelas PVs DDR em humanos modernos é o subproduto do processo de evolução humana.”
Embora os autores de Li et al. interpretem isso como um “subproduto da evolução humana”, a tese da radiação cósmica oferece um mecanismo proximal para a origem dessas PVs. O aumento da radiação cósmica teria elevado a taxa de mutação em células germinativas e somáticas , sobrecarregando os mecanismos de reparo de DNA e resultando na fixação de novas PVs DDR na população humana em expansão .
Conclusão
A tese de Sodré Gonçalves de Brito Neto oferece uma explicação mais parcimoniosa e universal para o pico de acúmulo de mutações humanas entre 5.000 e 10.000 anos atrás, em contraste com a hipótese de Crabtree . A correlação temporal entre eventos de radiação cósmica de alta energia e o surgimento de mutações deletérias em humanos e em grandes mamíferos não-humanos sugere que um fator ambiental global, e não apenas a mudança cultural humana, foi o principal catalisador deste fenómeno evolutivo.
A fragilidade do intelecto humano, se existente, pode ser uma consequência, e não a causa, de um aumento na taxa de mutação induzida por radiação, que afetou a integridade genómica de forma generalizada. Estudos futuros devem focar na modelagem da taxa de mutação em função da intensidade do fluxo de raios cósmicos no Holoceno para quantificar o impacto biológico direto desses eventos.
Referências
[67] Carpinteri, A.; Lacidogna, G.; Manuello, A.; Borla, O. (1 de março de 2013). «Piezonuclear Fission Reactions from Earthquakes and Brittle Rocks Failure: Evidence of Neutron Emission and Non-Radioactive Product Elements». Experimental Mechanics (em inglês) (3): 345–365. ISSN1741-2765. doi:1007/s11340-012-9629-x. Consultado em 9 de junho de 2025
[68]Sodré Neto (2025). «Efeitos de Grandes Impactos de Asteroides na Geologia Sedimentar, Geocronologia Radiométrica e DNA dos Seres Vivos (SNPs) Sodré GB Neto». doi:10.13140/RG.2.2.35732.21120. Disponível em https://jornaldaciencia.com/os-efeitos-nucleares-dos-grandes-impactos-podem-explicar-contradicoes-datacionais-uniformitarianistas/ . Consultado em 3 de janeiro de 2026
Aqui está a tabela atualizada com 32 exemplos, destacando a variante canônica NM_000546 nos ancestrais fósseis e as múltiplas variações genéticas observadas em seus descendentes modernos, acompanhadas das referências científicas completas.
Tabela de Evolução do Gene TP53 em Mamíferos: Do Canônico ao Variável
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#
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Ancestral (Fóssil/Reconstruído)
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Descendente Moderno
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Estado Ancestral (NM_000546)
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Variações no Descendente Moderno
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Referência (DOI/PMID)
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1
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Neandertal
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Homem Moderno
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Canônico
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~1000 variações (ex: P72R, R248W)
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2
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Mamute Lanoso
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Elefante Africano
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Canônico
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Expansão para 20 cópias (1 gene + 19 retrogenes)
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3
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Basilosauridae
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Baleia-franca
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Canônico
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Substituição Leu na região rica em prolinas
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4
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Ancestral Quiróptero
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Morcego-de-Brandt
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Canônico
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Inserção de 7 aa na região de ligação ao DNA
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5
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Ancestral Roedor
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Rato-toupeira-pelado
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Canônico
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Estabilização extrema e acúmulo nuclear
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6
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Ancestral Cetáceo
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Baleia-azul
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Canônico
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Seleção positiva em vias de supressão tumoral
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7
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Ancestral Fiseterídeo
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Cachalote
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Canônico
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Variações em genes da via p53 (Peto’s Paradox)
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8
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Ancestral Delfinídeo
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Golfinho-nariz-de-garrafa
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Canônico
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Seleção positiva em resíduos conservados
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9
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Ancestral Sirênio
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Peixe-boi
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Canônico
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Expansão de cópias de TP53
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10
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Ancestral Spalacídeo
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Rato-toupeira-cego
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Canônico
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Substituição Arg174Lys (afinidade ao DNA)
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11
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Ancestral Hominídeo
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Chimpanzé
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Canônico
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Diferenças na regulação transcricional
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12
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Ancestral Hominídeo
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Gorila
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Canônico
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Variações na região promotora
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13
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Urso Ancestral
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Urso Polar
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Canônico
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Seleção positiva em genes de reparo de DNA
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14
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Ancestral Pinípede
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Foca-de-baikal
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Canônico
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Adaptações para hipóxia na via p53
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15
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Ancestral Quiróptero
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Morcego-pequeno-marrom
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Canônico
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Inserções na região de ligação ao DNA
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16
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Ancestral Esquilo
|
Esquilo-terrestre
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Canônico
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Variações ligadas à hibernação
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17
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Ancestral Camelídeo
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Camelo
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Canônico
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Seleção positiva em resposta ao estresse
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18
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Ancestral Girafídeo
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Girafa
|
Canônico
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Adaptações no ciclo celular (pressão alta)
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19
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Ancestral Rinoceronte
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Rinoceronte-branco
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Canônico
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Variações em supressores de tumor
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20
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Ancestral Xenarthra
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Tatu-galinha
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Canônico
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Duplicação massiva de genes supressores
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21
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Ancestral Pilosa
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Preguiça-de-dois-dedos
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Canônico
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Proliferação celular lenta
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22
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Ancestral Pilosa
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Tamanduá-bandeira
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Canônico
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Duplicação de genes da via p53
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23
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Ancestral Monotremado
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Ornitorrinco
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Canônico
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Traços ancestrais de répteis
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24
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Ancestral Monotremado
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Equidna
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Canônico
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Variações genômicas únicas
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25
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Ancestral Marsupial
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Diabo-da-tasmânia
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Canônico
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Seleção positiva (tumor facial)
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26
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Ancestral Marsupial
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Canguru-vermelho
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Canônico
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Variações em genes de reparo de DNA
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27
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Ancestral Marsupial
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Gambá-de-orelha-preta
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Canônico
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Conservação com variações específicas
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28
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Ancestral Sirênio
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Peixe-boi-da-amazônia
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Canônico
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Expansão de cópias de TP53
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29
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Ancestral Sirênio
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Dugongo
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Canônico
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Variações em genes supressores
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30
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Ancestral Proboscídeo
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Elefante Asiático
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Canônico
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Expansão de retrogenes TP53
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31
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Ancestral Bovídeo
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Vaca
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Canônico
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Retroposon antigo no promotor de TP53
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32
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Ancestral Canídeo
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Cão
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Canônico
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Variações em hotspots de mutação de p53
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