Paleogenômica Terapêutica: A Superioridade de Sequências Ancestrais e a Edição CRISPR como Fronteira para a Medicina de Precisão e Longevidade

Elefante com proteção TP53

Autores: Sodré GB Neto, Elisangela de Paula Silveira Lacerda, Carlos Eduardo Anunciação ,  *John Christopher Sanford), *William Francis Basener
* autores convidados

Resumo

A medicina moderna enfrenta desafios crescentes relacionados a doenças complexas e ao declínio funcional associado ao envelhecimento, frequentemente ligados ao acúmulo de mutações deletérias na linhagem germinativa humana, um fenômeno conhecido como entropia genética [65] [66] [67]. Este artigo propõe um novo paradigma terapêutico: a Paleogenômica Terapêutica, que explora a superioridade funcional de trechos genéticos ancestrais, preservados em fósseis e múmias, para aprimorar a saúde humana [4] [5] [7]. A Paleogenômica, a disciplina que estuda o DNA antigo (aDNA), revelou que proteínas, enzimas e microRNAs de organismos extintos ou ancestrais frequentemente exibem características superiores, como maior estabilidade térmica, atividade catalítica e versatilidade funcional, em comparação com suas contrapartes modernas [8] [15] [16]. Argumentamos que a integração precisa dessas sequências genéticas “otimizadas” no genoma humano, utilizando a tecnologia de edição genética CRISPR-Cas, representa uma oportunidade sem precedentes para reverter o declínio genético e desenvolver terapias de precisão para o câncer, doenças neurodegenerativas e o envelhecimento [28] [114] [119].

1. Introdução

O estudo do DNA antigo (aDNA), iniciado com a análise de múmias e espécimes de museu [1] [2], transformou nossa compreensão da evolução humana e da função gênica [4] [5] [7]. O desenvolvimento de técnicas de sequenciamento de nova geração (NGS) e métodos bioinformáticos robustos permitiu a reconstrução de genomas completos de hominíneos arcaicos e de megafauna extinta [71] [72] [73] [105].
A hipótese central deste trabalho reside na ideia de que a evolução, embora adaptativa, não é um processo de otimização contínua, mas sim um compromisso entre a adaptação e o acúmulo inevitável de mutações de efeito pequeno, mas cumulativo, que são difíceis de serem eliminadas pela seleção natural [68] [69] [70] [107]. Esse processo, a entropia genética, sugere que o genoma humano moderno pode estar em um estado de funcionalidade subótima em comparação com seus ancestrais mais robustos [67] [108] [109].
A Paleogenômica Terapêutica propõe que a solução para o declínio funcional reside na recuperação e reintrodução de sequências genéticas que existiam em um estado de menor carga mutacional. A Reconstrução de Sequências Ancestrais (ASR) é a principal ferramenta para inferir as sequências de proteínas e genes em nós ancestrais da árvore filogenética [9] [10] [40] [41]. A combinação da ASR com a precisão da edição CRISPR-Cas [29] [30] permite a inserção direcionada dessas sequências ancestrais, abrindo caminho para uma medicina verdadeiramente evolutiva [86] [87] [88].

2. A Superioridade de Proteínas e Enzimas Ancestrais

A pesquisa em ASR tem demonstrado consistentemente que proteínas ancestrais, ressuscitadas em laboratório, frequentemente exibem propriedades físico-químicas e funcionais superiores às suas homólogas modernas [8] [44].
Estabilidade e Atividade: Uma característica recorrente é a maior estabilidade térmica e cinética. Por exemplo, proteínas ancestrais como a tioredoxina, reconstruída a partir de organismos de 4 bilhões de anos, demonstraram estabilidade térmica comparável ou superior às versões modernas [16] [50]. Outros estudos com enzimas como a β-lactamase e a paraoxonase (PON) ancestral revelaram maior robustez e promiscuidade funcional, permitindo que a enzima ancestral catalisasse uma gama mais ampla de reações do que suas descendentes modernas [45] [49] [51]. Essa promiscuidade funcional é vista como uma vantagem evolutiva, oferecendo maior adaptabilidade em ambientes variáveis [62] [63].
Implicações Terapêuticas: A superioridade funcional dessas proteínas ancestrais sugere que elas podem ser candidatas ideais para terapias de substituição ou aprimoramento genético. Enzimas ancestrais com maior estabilidade poderiam ser mais eficazes em ambientes fisiológicos estressantes ou ter uma meia-vida mais longa em terapias de administração de proteínas [17] [18]. A reconstrução de vias metabólicas primordiais pode revelar mecanismos de resistência a patógenos ou toxinas que foram perdidos na evolução humana recente [14] [52] [58].

3. MicroRNAs Antigos: Reguladores de Identidade Tecidual e Estabilidade

MicroRNAs (miRNAs) são pequenos RNAs não codificantes que atuam como reguladores mestres da expressão gênica [23] [27]. A análise paleogenômica e evolutiva dos miRNAs revela que as famílias mais antigas e conservadas tendem a ter uma expressão mais ampla em diversos tecidos e a regular um número maior de genes-alvo [25] [26].
Conservação Funcional: A evolução dos miRNAs metazoários é caracterizada pela adição contínua de novas famílias, mas as famílias mais antigas, que surgiram na base dos Bilateria, como miR-100, são cruciais para a identidade tecidual e o desenvolvimento [20] [21] [22]. A conservação extrema dessas sequências sugere que elas representam um estado regulatório altamente otimizado e robusto [24].
Potencial Terapêutico: A reintrodução de variantes ancestrais de miRNAs, ou de seus elementos regulatórios, pode restaurar a robustez dos programas de desenvolvimento e reparo celular que foram comprometidos por mutações acumuladas [26]. Por exemplo, miRNAs ancestrais com maior capacidade de regulação de múltiplos alvos podem ser utilizados para modular redes de genes envolvidas em processos complexos como a diferenciação celular e a resposta ao estresse oxidativo [27].

4. O Caso dos Proboscídeos e o Gene TP53

Um dos exemplos mais convincentes da superioridade genética ancestral é encontrado nos proboscídeos (elefantes, mamutes e mastodontes), que desenvolveram mecanismos robustos de supressão tumoral [11] [12].
Resistência ao Câncer: Apesar de seu grande tamanho e longa expectativa de vida (o que, pela teoria de Peto, deveria aumentar o risco de câncer), os elefantes modernos e seus ancestrais extintos apresentam uma taxa de mortalidade por câncer notavelmente baixa [11]. A análise genômica revelou que os elefantes possuem 20 cópias funcionais do gene supressor de tumor TP53, em contraste com a única cópia encontrada em humanos [11] [12]. Além disso, eles possuem um gene “zumbi” (LIF6) que foi reativado e é induzido pelo TP53 em resposta a danos no DNA, levando à apoptose (morte celular programada) de células danificadas [13].
Aplicação em Humanos: A Paleogenômica Terapêutica propõe a utilização da edição CRISPR para introduzir a variante ancestral ou uma cópia adicional do TP53 de proboscídeos, ou o próprio gene LIF6, em células humanas [119]. A inserção de um TP53 ancestral, que pode ter uma atividade de reparo de DNA ou sensibilidade a danos mais eficiente, ou a reativação de um mecanismo de apoptose “zumbi” como o LIF6, poderia conferir uma resistência ao câncer sem precedentes em humanos, abordando diretamente uma das principais causas de mortalidade na modernidade [11] [13].

5. Metodologia: Edição CRISPR com Sequências Ressuscitadas

A tecnologia CRISPR-Cas é o vetor ideal para a Paleogenômica Terapêutica, pois permite a inserção precisa de grandes trechos de DNA (knock-in) no genoma hospedeiro [30] [115] [116].
Estratégias de Knock-in: A inserção de sequências ancestrais (proteínas, enzimas, miRNAs) pode ser realizada através de:
1.Reparo Dirigido por Homologia (HDR): Utilizando a quebra de fita dupla induzida pela Cas9 e um molde de DNA do gene ancestral flanqueado por braços de homologia [115] [117].
2.Edição de Base (Base Editing) e Edição Prime (Prime Editing): Para a introdução de mutações pontuais específicas que revertem o acúmulo de mutações deletérias modernas para o estado ancestral [33] [34].
3.Sistemas CRISPR Ancestrais: Curiosamente, a ASR também tem sido aplicada para ressuscitar nucleases CRISPR ancestrais, que demonstraram ser mais compactas, eficientes ou possuir um repertório de alvos mais amplo (PAM) do que as versões modernas, tornando-as ferramentas de edição mais versáteis [35] [36] [123] [125].
Desafios Técnicos: A principal barreira é a imunogenicidade e a entrega (delivery) [120] [124]. A introdução de proteínas ou sequências genéticas de espécies extintas ou distantes pode desencadear uma resposta imune [114]. A solução reside na “humanização” das sequências ancestrais, mantendo a funcionalidade superior, mas modificando os epítopos imunogênicos [121]. Vetores virais adeno-associados (AAV) continuam sendo a principal via de entrega in vivo [120].

6. Discussão: Oportunidades e Ética

A Paleogenômica Terapêutica oferece uma mudança de paradigma da medicina reativa para a medicina evolutiva [86] [87]. Em vez de tratar os sintomas de doenças causadas por mutações modernas, ela busca restaurar a funcionalidade genética ancestral, potencialmente mais robusta e resiliente [107] [109].
Oportunidades:
Longevidade e Senescência: Reverter o declínio funcional de genes de reparo de DNA e controle de estresse oxidativo [108] [110].
Resistência a Doenças: Introduzir mecanismos de defesa contra o câncer (TP53/LIF6) ou antimicrobianos ancestrais [14].
Aprimoramento Funcional: Utilizar enzimas ancestrais com maior estabilidade para terapias enzimáticas de substituição [17] [18].
Implicações Éticas: A proposta de “melhorar” o genoma humano com sequências ancestrais levanta questões éticas complexas, especialmente no que tange à edição da linhagem germinativa [106]. É crucial que a pesquisa seja conduzida com transparência, respeitando as diretrizes de bioética e o consentimento informado, focando inicialmente em terapias somáticas para doenças graves [114]. A discussão sobre a “ressurreição” funcional deve ser equilibrada com a consideração dos riscos e benefícios para a saúde pública [109].

7. Conclusão

A convergência da paleogenômica, da reconstrução de sequências ancestrais e da edição genética CRISPR-Cas abre um novo e promissor campo: a Paleogenômica Terapêutica. A superioridade funcional de proteínas, enzimas e microRNAs ancestrais, menos afetados pela entropia genética, oferece um vasto reservatório de soluções biológicas para os desafios de saúde da humanidade. A capacidade de integrar precisamente essas sequências robustas no genoma moderno, como exemplificado pelo caso do TP53 de proboscídeos, representa uma grande oportunidade para a medicina de precisão e para a busca de uma longevidade saudável. A pesquisa futura deve se concentrar na otimização da entrega e na “humanização” das sequências ancestrais para traduzir esse potencial em benefícios clínicos tangíveis.

Referências Bibliográficas

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