Relatório Científico: Modulação de MicroRNAs no Câncer de Bexiga por Plantas Medicinais e Alimentos

Sodré GB Neto

Strattner __ Conheça possíveis tratamentos do câncer de Bexiga

 

1. Introdução

O câncer de bexiga (CB) é uma das neoplasias malignas mais comuns do trato urinário, caracterizada por uma alta taxa de recorrência e heterogeneidade molecular. Recentemente, os microRNAs (miRNAs) — pequenas moléculas de RNA não codificantes que regulam a expressão gênica pós-transcricionalmente — emergiram como reguladores críticos na patogênese do CB. Eles atuam tanto como oncomiRs (promovendo a oncogênese quando superexpressos) quanto como supressores de tumor (inibindo o crescimento tumoral quando presentes em níveis normais, mas frequentemente subexpressos no câncer).
Este relatório cruza dados científicos sobre os perfis de miRNAs no CB com o potencial terapêutico de compostos bioativos e miRNAs exógenos (xenomiRs) derivados de plantas e alimentos.

2. Perfil de MicroRNAs no Câncer de Bexiga

Abaixo, detalhamos os principais miRNAs envolvidos na progressão do câncer de bexiga, categorizados por sua expressão e alvos moleculares.

Tabela 1: MicroRNAs Superexpressos (OncomiRs)

MicroRNA
Alvos Moleculares
Impacto Fenotípico
miR-21
PTEN, PDCD4, RECK
Inibição da apoptose e aumento da invasividade celular.
miR-155
SOCS1, SHIP1
Promoção de inflamação crônica e escape imunológico.
miR-221/222
p27Kip1, p57
Aceleração do ciclo celular e proliferação descontrolada.
miR-10b
HOXD10
Estímulo à transição epitelial-mesenquimal (EMT) e metástase.
miR-181a
RASSF1A
Ativação de vias de sobrevivência e proliferação.

Tabela 2: MicroRNAs Subexpressos (Supressores de Tumor)

MicroRNA
Alvos Moleculares
Função Protetora Perdida
miR-143
ERK5, KRAS, HK2
Controle da proliferação e do metabolismo energético (efeito Warburg).
miR-145
FSCN1, c-Myc, STAT3
Inibição da migração celular e da autorrenovação de células-tronco tumorais.
miR-195/497
E2F3, CDK4/6
Regulação dos pontos de controle do ciclo celular.
miR-125b
E2F3, ERBB2/3
Supressão de receptores de fatores de crescimento oncogênicos.
let-7 family
RAS, MYC, HMGA2
Regulação mestre de oncogenes fundamentais.

3. Modulação por Plantas Medicinais e Alimentos

A dieta e o uso de plantas medicinais oferecem uma via promissora para modular a expressão desses miRNAs, seja através de compostos fitoquímicos ou pela absorção de miRNAs vegetais.

3.1. Compostos Bioativos Moduladores

Diversos fitoquímicos demonstraram capacidade de reverter o perfil patológico de miRNAs no CB:
Curcumina (Cúrcuma): É um dos moduladores mais potentes. Estudos indicam que a curcumina reduz drasticamente os níveis de miR-21, restaurando a expressão do supressor de tumor PTEN. Além disso, ela aumenta os níveis de miR-143 e miR-145, inibindo a proliferação de células T24 de câncer de bexiga.
Resveratrol (Uvas/Vinho): Atua na via Akt/Bcl-2 através da regulação negativa do miR-21. Também demonstrou aumentar a expressão de miRNAs supressores que visam oncogenes de sobrevivência.
EGCG (Chá Verde): Modula o miR-210 e o miR-21, influenciando a angiogênese tumoral e a resposta à hipóxia no microambiente da bexiga.
Sulforafano (Brócolis/Crucíferas): Conhecido por suas propriedades quimiopreventivas, o sulforafano modula miRNAs envolvidos na desintoxicação de carcinógenos e na parada do ciclo celular.

3.2. MicroRNAs Exógenos (XenomiRs)

A hipótese da regulação “cross-kingdom” sugere que miRNAs de plantas ingeridas podem entrar na circulação humana e regular genes específicos:
miR-2911 (Madressilva/Lonicera japonica): Este miRNA é excepcionalmente estável e demonstrou alvejar o TGF-β1, uma citocina chave na progressão do CB e na fibrose. Sua ingestão pode, teoricamente, inibir a EMT em tumores de bexiga.
miR-156 e miR-168 (Arroz/Vegetais): Identificados em soro humano após a ingestão, esses miRNAs possuem sequências que podem, por complementaridade, alvejar vias de sinalização de mamíferos, embora estudos específicos em CB ainda sejam emergentes.

4. Cruzamento de Dados: Correspondências Terapêuticas

Alvo Patológico (miRNA)
Estratégia de Modulação
Fonte Sugerida
Superexpressão de miR-21
Inibição via Curcumina, Resveratrol, Quercetina
Cúrcuma, Uvas, Cebola roxa.
Falta de miR-143/145
Restauração via Curcumina, Genisteína
Cúrcuma, Soja fermentada.
Ativação de TGF-β1 (EMT)
Inibição via miR-2911 exógeno
Chá de Madressilva (Lonicera).
Proliferação via E2F3/CDK6
Modulação via Sulforafano, Baicaleína
Brócolis, Scutellaria baicalensis.

5. Conclusão e Perspectivas

A integração de dados genômicos com a nutrição de precisão e a fitoterapia revela que a modulação de microRNAs é um mecanismo central pelo qual plantas e alimentos exercem efeitos anticancerígenos. No câncer de bexiga, a estratégia de “silenciar oncomiRs” (como o miR-21) e “restaurar supressores” (como o miR-145) através de compostos como a curcumina e o resveratrol apresenta forte evidência pré-clínica.
Embora a aplicação clínica direta ainda dependa de estudos de biodisponibilidade e ensaios controlados, a inclusão desses alimentos e plantas na dieta pode atuar como uma terapia adjuvante valiosa, auxiliando na prevenção de recorrências e na sensibilização de células tumorais a tratamentos convencionais.
Referências Principais:
1.Tripathy, R., et al. (2025). The current status of miRNA in urinary bladder cancer. Indian Journal of Urology.
2.Liu, C., et al. (2021). Honeysuckle-derived microRNA2911 inhibits tumor growth by targeting TGF-β1.
3.Cione, E., et al. (2019). Quercetin, EGCG, Curcumin, and Resveratrol: miRNA modulators in cancer.
4.Enokida, H., et al. (2016). The role of microRNAs in bladder cancer. Clinical Urology.

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